Rainha Lilian e seu império noturno

"Diário do Comércio e Industria" 04 de janeiro de 2007


É difícil acreditar que a empresária Lílian Gonçalves dorme no máximo três horas por dia e ainda acorda "ótima" e disposta para 20 horas de batente - muitas delas em pé, andando de um lugar para outro na Rua Canuto do Val (bairro de Santa Cecília, zona oeste da capital paulista), onde é proprietária de seis bares e restaurantes. "A vida inteira eu dormi pouco", diz a empresária, sentada à mesa de seu escritório. De um lado, garrafas e mais garrafas de bebidas fazem com que o lugar tenha cara de almoxarifado. Mas o que mais define a "rainha da noite" - apelido que Lílian adora - são as etiquetas grudadas em seis grandes gavetas, como a "Fotos com amigos".

E amigo é o que não falta na vida desta mineira, que saiu sozinha de Brasília com 14 anos de idade para tentar a vida em São Paulo. Fotos com Geraldo Alckmin, Cláudio Lembo, Walter Feldman, Andréa Matarazzo, José Serra, desembargadores, delegados, artistas e cantores enfeitam as paredes de seus estabelecimentos.

Vestindo um tailleur e jóias à la Hebe Camargo, Lílian explica por que em pleno século XXI ainda é raro ver mulheres empresárias investindo na noite paulistana. "É a profissão mais difícil, exaustiva e complicada. Para encarar uma empresa à noite é preciso ter nervos e saúde de aço e muita persistência e determinação. "Para tudo correr bem na vida noturna, a empresária precisa se organizar durante o dia. É por isso que mesmo indo dormir às 7 horas da manhã, volta ao seu escritório pouco depois. No máximo, às 13 horas, já estou trabalhando de novo. Tudo tem que estar impecável para os clientes às 18 horas", diz Lílian, a incansável.

Para se ter uma idéia da correria, principalmente no período de festas de fim de ano, Lílian conta que entre o dia 1º de dezembro e a véspera de Natal do ano passado, 256 eventos fechados tomaram conta dos seus seis endereços na Canuto do Val, o que deu mais de um evento diário por estabelecimento.

Também quando um cliente comemora seu aniversário nos bares e restaurantes de Lílian, a empresária é avisada e sai correndo para cantar os Parabéns a Você com os garçons. E diz com orgulho que consegue ainda cumprimentar até 90% de todo mundo que senta às suas mesas. "Sou uma grande sobrevivente deste "Centrão". Tudo é mais difícil aqui. Para levar alguém a um restaurante dos Jardins, basta dizer uma vez. Agora, para trazer um cliente para a Santa Cecília, tem que falar 20 vezes", diz.

Destino

A empresária conta que foi o destino que a levou ao bairro. Lílian tinha apenas 14 anos e havia saído sozinha de Brasília com "duas mudas de roupa numa sacolinha". Foi parar numa pensão, na Rua Jaguaribe - próxima à Canuto do Val - e o primeiro emprego foi na Avenida Rio Branco, centro da cidade, como garçonete. "Eu sempre trabalhei como se fosse para mim, como se fosse dona do negócio. Nunca tive preguiça", diz a empresária.

Ela trabalhou em outros lugares, sempre juntando as economias, até que viu uma placa anunciando a venda de um bar na mesma rua da pensão. Foi lá dar uma olhada - "era minúsculo, menor que esta sala" - e com 16 anos de idade tornou-se a feliz proprietária do estabelecimento, batizado de Kalinka Bar e Lanches. O bar foi um sucesso, como tudo em que Lílian parece colocar a mão, e logo ficou pequeno.

O nome do primeiro bar, Kalinka, foi em homenagem à heroína de um romance que Lílian leu. Já o Biroska é uma referência aos mineiros que chamam qualquer estabelecimento de birosca. Como todos os nomes saem da cabeça de Lílian, agora ela está em dificuldade para batizar sua nova casa - " o projeto ainda é segredo" , diz a empresária.

Após a abertura do Kalinka, apareceu a Toca da Angélica e ela não deixou passar a oportunidade de abrir sua segunda casa. "Essas coisas de colocar mesa na calçada e fotos nas paredes, de abrir de segunda a segunda e fechar tarde da noite, tudo isso eu inventei", conta. Como já sabia cozinhar muito bem, resolveu inovar e servir comida baiana. Formava fila na porta da Toca com gente que queria comer o sarapatéu, vatapá e o acarajé de Lílian. Logo, a Toca também ficou pequena e a empreendedora abriu o Biroska - ela tinha não mais que 20 anos de idade. A empresária frisa que guardar datas, para ela, é difícil. Diz não conseguir lembrar quantos anos tinha nem quando exatamente o Biroska foi inaugurado, o que dificulta descobrir a idade de Lílian hoje. "Eu não dou conta de data. As coisas foram muito rápidas na minha vida".

Pelas mãos dela já passaram 22 casas, sendo que chegou a administrar 12 simultaneamente. Hoje é dona do Biroska - A casa dos artistas, Território da Bahia, Espetinho, Cerveja & Cia., Viva Maria, Bastidores e o Frango com Tudo, este último uma homenagem ao presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976). Lílian viu sua trajetória ser retratada na minissérie JK, da rede globo. A mãe da empresária, por conta do destino, virou cozinheira do então presidente no Catetinho. "Ele adorava os quitutes mineiros dela. Fiquei amigona do JK", diz. Lílian. Apesar de 2006 ter sido um ano "turbulento, preocupante e com uma série de agravantes, como a Copa do Mundo de Futebol, os ataques do PCC e uma eleição com dois turnos", a empreendedora faturou R$2 milhões a mais no ano passado que em 2005. Será que nem a chuva, que tanto atrapalha a vida do paulistano nesta época do ano, mexe com o faturamento das seis casas de Lílian Gonçalves? "O mundo pode acabar em um barranco que nada atrapalha", diz a empresária, confiante. "Eu tenho uma relação boa com o dinheiro. Nasci para administrar. Sou pé no chão, poderia estar nos Jardins, mas é aqui que eu ganho dinheiro."

Ajudei muito para a emancipação da mulher, diz Lílian. O preconceito contra a mulher é o obstáculo que ela enfrenta.

Segundo a empresária, é preciso muita determinação e persistência para um negócio dar certo.

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