Nascida para brilhar

Revista “Flash” março 2006, nº. 140, pág. 38, 39, 40, 41, 42, 43


Era uma vez uma menina pobre que, saído do interior de Minas, chegou num pau-de-arara no Planalto central durante a construção de Brasília, onde sua mãe se estabeleceu como cozinheira da residência provisória de Juscelino Kubitschek, antes da inauguração do Palácio da Alvorada. "Mamãe foi para lá em 1956, com nove filhos, quando a cidade estava em obras. Alguém descobriu que ela sabia cozinhar e a indicou para o presidente", conta Lilian Gonçalves, então uma pré-adolescente que chamava atenção tanto pela beleza quanto pela esperteza para os negócios, o que despertou a atenção de Juscelino. "Lembro que ele elogiava a minha beleza e a minha inteligência, vaticinando que eu iria longe, que eu teria um grande futuro. Mas nunca fui amante do JK, quem disse isso? Eu era uma criança."

Em Brasília, apesar do incentivo do presidente, Lilian passou fome, sentiu dores e foi estuprada. Aos 16 anos, deixou a família para trás e fugiu para São Paulo, onde, à custa de trabalho duro e muita luta (distribuiu folhetos nas ruas, vendeu perfumes, foi garçonete e trabalhou como gerente de bar), construiu um pequeno império que se inclui, além de um complexo de bares e restaurantes, uma boa roda de amigos e projeção nacional. São seis bares e casas de espetáculo, por onde já passaram vips como Pelé, a ex-prefeita Marta Suplicy e a secretária de Turismo de Brasília Lúcia Flecha de Lima, ex-embaixatriz em Roma e Washington. Essa é a história real da esfuziante empresária da noite Lilian Gonçalves. Transposta para a autobiografia A Vida Brilhando em Néon - De Menina Sem Nada a Rainha da Noite -, ela encantou os autores Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira e acabou se transformando num dos núcleos da minissérie JK. Núcleo que, por sinal, foi apontado como responsável pelo aumento da audiência em sua segunda fase. "Tudo que está ali é a mais pura realidade. Os autores foram fiei à minha passagem por Brasília. Figurinos, Maquiagem e a ambientação toda parecem me fazer voltar a sentir o ar seco e a poeira com que convivíamos naquele lugar. E o elenco, então... As atrizes que escolheram para me interpretar me emocionam a cada episódio", derrete-se a empresária, salientando o trabalho de Maria Luiza Rodrigues (que a viveu quando criança) e de Mariana Ximenes (na adolescência). "Parece que estou me vendo ali" diz Lilian, que, por trabalhar na noite, gravava os episódios e os assistia na manhã seguinte, antes dos amigos telefonarem ou mandarem e-mails com comentários.

Abuso Sexual

A maior dificuldade foi ver a cena em que ela, aos 12 anos, é abusada sexualmente pelo cunhado Severino (Vivido por Fábio Lago). "Lutei minha vida toda para esquecer as coisas ruins que me aconteceram. Mas a interpretação de Mariana Ximenes foi tão incrível que o medo que ela sentir ao acordar e ver subitamente aquele homem asqueroso tocando sua perna, sobretudo o pavor em seu olhar, fez em segundos tudo voltar à sua memória. Foi tão forte que, de repente, eu estava assistindo à gravação sozinha, simplesmente apaguei. Devo ter tido uma espécie de desmaio", confessa. Provavelmente essa será a única fragilidade assumida por essa guerreira que, mesmo sem ter podido estudar muito, aprendeu direitinho como conjugar os verbos "lutar" e "fazer".

Mineira de Guarapuava, Lilian chegou ao Planalto Central ao lado da mãe, viúva, e de oito irmãos. "Lavei pára-brisas de carro, engraxei sapatos, vendi muito café e pão de queijo, fui babá, só nunca vendi minha dignidade", conta, orgulhosa. Depois do estupro, ela saiu da casa da irmã, empregou-se num hotel, economizou muito e, junto a essa mesma irmã, já então separada, abriu seu primeiro restaurante em Taguatinga. Foi tanta garra que aos 14 anos conseguiu registrar o negócio em seu nome, tendo ainda que ser muito forte para se impor junto a clientes abusados - com revólver na cintura quando preciso. Um ano depois, uma foto em um jornal rendeu um convite para participar do primeiro concurso de Miss da nova capital, que venceu sem esforço, em 1960. Mas teve que devolver seu título que sua própria família a denunciou por ser menor de idade. As frustrações eram tantas que um belo dia Lilian resolveu fugir, deixando tudo de ruim para trás. "Meus primeiros tempos em São Paulo foram terríveis. Lembro da minha primeira véspera de Natal. Enquanto todos corriam atrás de preparar as ceias, presentes e roupas novas, eu estava sozinha numa cama de pensão, sem sequer um pão para comer. Lembro que chorei muito no dia essa noite. Mas, cedinho no dia seguinte, fui em busca de trabalho e logo fui contratada como garçonete", conta.

Império cor-de-rosa

Dez anos depois de chegar em São Paulo, Lilian Inaugurava seu primeiro bar. Enfrentou toda sorte de preconceitos e boicotes, mas hoje exibe orgulhosa nas paredes da Biroska, seu bar mais famoso, 308 troféus de prêmios, entre eles, o da Empresária do Ano. Em seu pequeno império de bares e casas noturnas, todas num mesmo quarteirão no bairro de Santa Cecília, na capital de São Paulo, Lilian comanda 400 funcionários e 120 músicos. Apesar de rica - compra roupa na Daslu, anda em um Jaguar novinho e mora com os dois filhos num casarão no Alto de Pinheiros -, não sabe o que é ficar sem fazer nada.

Diariamente, começa sua jornada as quatro da tarde, sempre bem vestida, maquiada, com um sorriso nos lábios, encima de um salto agulha, e só sai de suas casas depois das 7 da manhã. "Acho um absurdo as pessoas trabalharem 8 horas por dia e passar 16 horas gastando. Todo mundo que é bem-sucedido trabalha muito. Não há outra forma de crescer", ensina. Talvez por isso tenha resolvido lavrar em testamento o fundo comercial de seus negócios para os 20 melhores funcionários de suas empresas "meus dois filhos não se interessam pelo meu negócio. E não é justo deixar tudo isso acabar quando eu me for", conta.

Artista bissexta, Lilian já teve seu próprio programa de TV, fez pontas em oito filmes, gravou cinco discos românticos, foi tema do carnaval da Vai-Vai e protagonizou shows nos quais chegava numa enorme limousine branca. A minissérie não chegou a contar essa trajetória pós Brasília. Até porque, se fosse para ser contada em detalhes, a história por si só, uma minissérie inteirinha. Que inclui, entre outros fatos interessantes, o fato de a mãe em seu leito de morte ter revelado a ela, então com 25 anos, que seu pai verdadeiro foi o cantor Nelson Gonçalves, fruto de um relacionamento de uma noite, durante uma breve separação do marido. Uma vida e tanto...