Aqui não é Higienópolis

Revista "Divirta-se" do Jornal da Tarde, 05 de agosto de 2005


Nem República, nem Higienópolis. O bairro de Santa Cecília tem identidade própria. Basta passar por seu epicentro, o Largo de Santa Cecília, para constatar e sentir um certo clima de província em meio à agitação do centro da cidade.

Boemia e tranqüilidade se encontram nos arredores da igreja-matriz.
Erguido a partir de uma pequena capela, em 1860, o local só ganhou os contornos atuais em 1907. Dois importantes pintores brasileiros produziram vitrais e afrescos para a igreja: Benedito Calixto e Oscar Pereira d Silva. Vale lembrar que Santa Cecília é a padroeira dos músicos.

Mas foi por volta dos anos 50 que o largo viveu o seu apogeu. Madames endinheiradas formavam filas para fazer compras e tomar o chá da tarde nas lojas Clipper. Enquanto isso, os maridos praticavam o "footing" no Largo e "pagavam pipocas". Ou seja, passeavam e distribuíam pipocas para as crianças que se aglomeravam na frente da Clipper.

Nos anos 70, a chegada do Minhocão contribuiu para a decadência do lugar. Já nos anos 80, a freqüência do Largo Santa Cecília mudou radicalmente. O Espaço Retro importante balada alternativa da época virou reduto punk. Um dos mais célebres clientes foi o músico australiano Nick Cave, que morou em São Paulo. Hoje, lojas e bares dividem os espaços com camelôs. Mas a mistura de clama e agito impera.

Lílian é a dona do bairro.
O império da "rainha da noite" está em Sant Cecília. Lílian Gonçalves, a empresária que nos anos 80 ficou folclórica ao desfilar pela cidade com sua limusine branca, mantém lado a lado, na rua Canuto do Val, cinco de suas nove casas - além do bar biroska, aberto em 1975 e que dá nome à rede, estão lá os restaurantes Território da Bahia e Espetinho Cerveja & Cia., o Viva Maria MPB Bar e a casa de shows Bastidores.

"Sou uma sobrevivente do bairro", diz Lílian. "Era para Santa Cecília ser um bairro anônimo. Fui eu quem trouxe movimento para a região", garante, sem falsa modéstia. Afinal, mais de mil pessoas passam pelas suas casas por noite. "Foram 450 mil pessoas em 2004, não só da região, mas de todo Brasil."

Mas os planos da "rainha da noite"(título dado pela imprensa e incorporado sem o menor pudor) são ainda mais ambiciosos. Eles incluem mais um restaurante na região - este, especializado em frango - e a calçada da fama, para homenagear astros brasileiros como Ayrton Senna e Gisele Bundchen.

"Quero incluir Santa Cecília no circuito turístico internacional."
Também está entre os projetos da empresária colocar em janeiro do ano que vem telões por toda a Canuto do Val, para a estréia de "JK", minissérie de Maria Adelaide Amaral sobre a vida do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Isso porque ela será uma das personagens da atração. "Minha mãe foi cozinheira do Juscelino, e ele tinha um carinho todo especial por mim", conta. A idéia é reunir 10 mil pessoas para o "evento". "Vou convidar todos os meus clientes e amigos. É uma honra ser homenageada desta maneira. Não mereço tudo isso, minha vida dói só de trabalho."

A sua história com o ex-presidente, assim como o fato de ela ser filha bastarda do cantor Nelson Gonçalves, estão narrados em seu livro autobiográfico intitulado "A vida Brilhando em Néon" - de Menina sem Nada a Rainha da Noite". A face escritora de Lílian está também em "Dicas de Sucesso Para Novos Empresários".

"Estou escrevendo um terceiro livro, só de frases minhas." Alguma sobre Santa Cecília? "Não, mas coloca ai: "Meu amor está sendo plenamente correspondido pelo bairro de Santa Cecília."

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