Boemia no sangue
Revista "Já", 30 de Abril de 2000, nº. 182, ano 4, pág. 18, 19 e 20
A Boemia é uma característica genética. Quem defende a tese é Lilian Gonçalves, empresária ainda considerada a rainha da noite paulistana, graças às casas Biroska, Scandal, Bastidores e Espetinho, Cerveja & Cia. Aos 15 anos, quando deixou Brasília sem destino certo e chegou em São Paulo, recebeu uma carta a mãe, dona Lica, dizendo que seu pai verdadeiro era Nelson Gonçalves. "Na época, nem me toquei, mal conhecia o Nelson, e tinha mais é que batalhar na vida." Só se encontrou com o pai na festa de 40 anos de carreira do grande cantor, em uma de suas casas. "Chegamos a ter contato, mas a relação não foi em frente, pois sua filha Margareth atrapalhava qualquer tipo de aproximação. De qualquer forma, ele se considerava meu pai e só não teve tempo de reconhecer a paternidade", destaca ela, cujo depoimento é confirmado por Cauby Peixoto. O Intérprete de Conceição, que sempre se apresenta nos palcos da amiga, lembra de vários comentários do colega sobre Lilian. "Nelson perguntava daquele seu jeito sacaninha: 'Ela é boa, não? Você acha minha filha boa? ', quando via e ouvia soltando a voz em canções sertanejas."
De tudo, Lilian garante que não ficou mágoa. Da mesma forma, ela não se considera do tipo que suspira pela falta da figura paterna. "Imagine se tenho tempo pra frescuras como neuras e análise? O trabalho não me deixa espaço para isso", dispara. Aliás, ela tem uma nova presença masculina na vida: um marido, figura da qual sempre abriu mão em seus 50 anos. Em 22 de março, casou-se como manda o figurino, com papel passado e tudo, com o empresário do setor de metais André Attivo Junior. A cerimônia, ao contrário do que faria esperar o estilo esfuziante da noiva, foi íntima, apenas com a presença de seus filhos Kalinka, de 28 anos, Job Junior, de 22, e da neta Narrimann, de 4. "Eu achava que ninguém iria me botar um freio, mas casar não é tão ruim como imaginava. Exatamente porque o André não me policia em nada, é compreensivo demais, entende meu ritmo."
Batalha - Independência foi sempre a palavra de ordem na vida de Lilian, que pode ser considerada a perfeita tradução de self made woman. Nascida em Patos de Minas (MG) e criada em Brasília, chegou a São Paulo há 35 anos com a cara e a coragem. "Foi um choque tremendo, eu era verde de tudo, nunca tinha visto prédios altos", lembra. Da rodoviária, ainda com a malinha na mão, foi para Avenida Rio Branco, ainda com a malinha na mão, pedir emprego no restaurante popular Sopa Carioca. "Praticamente implorei para o dono chinês e ele me mandou lavar pratos", conta. Duas semanas depois já era garçonete. Em 1970, abriu a primeira casa, uma portinha na Rua Jaguaribe, chamada Kalinka, nome da filha recém-nascida que ficava numa cestinha embaixo do balcão enquanto a mãe ralava.
A grande oportunidade veio em 1972, ao se interessar pelo ponto da Biroska, na Rua Canuto do Val esquina com Dona Veridiana, em Santa Cecília. "Era tão menina que o dono não acreditou no meu interesse. Pediu que fosse chamar meu pai", lembra. A saída foi um negócio com prestações de perder de vista, comprometendo-se a pagar tudo em dia e só assumir as rédeas quando a ultima parcela for saldada. "Enquanto isso trabalhava como garçonete na casa. As outras meninas nem sabiam que eu era a futura dona. Quando assumi, foi uma festa, os clientes que tinha conquistado mal acreditavam."
Altos e baixos - Com a transição da garçonete para patroa surgiu a mística sobre a empreendedora, que logo ficou conhecida como Rainha da Noite. Ela jurava que foi a inspiradora da personagem Maria do Carmo, interpretada por Regina Duarte em Rainha da Sucata. "Pena que o Silvio de Abreu, que adoro, não assuma isso. Não tive muito tempo para acompanhar a novela, mas havia muitas coisas parecidas. Silvio começou a freqüentar minhas casas na época de Guerra dos Sexos e sempre disse que minha historia dava uma novela."
Com direitos a lances dramáticos, é bom que se diga. Em 21 de março de 1990, por exemplo, ela viu seu nome migrar das paginas sociais para as policiais. Lilian foi presa em meio a histeria do Plano Collor, por vender chope a Cr$ 50, o dobro do valor tabelado pelo governo (Cr$ 25,80). "Foi tudo armado por um delegado da área, que mandou dois caras na Biroska 3, eles fizeram um escândalo pedindo nota fiscal e passei. Em seguida, voltaram com o camburão. Achei que era por causa do tumultuo que arrumaram, mas disseram que eu estava presa. O chão sumiu. Fiquei três dias na cadeia e ao sair pensei: estou quebrada! Nada. O movimento triplicou e ainda recebi mais de 2 mil telegramas de solidariedade"
Lado negro - A outra volta por cima, em 94, exigiu maior esforço, e ainda lhe trás amargas recordações. Em 20 de junho daquele ano, seu motorista, Osvaldo Francisco de Souza, foi seqüestrado e morto pelos policiais militares Joselito Gonçalves, Paulo Rogério da Silva e Júnio José Pinheiro. "Eles o jogaram num mato e estavam rumando para minha casa, no Alto de pinheiros, quando foram parados por uma viatura do Garra e confessaram o crime. Acabaram condenados a 30 anos de prisão." Dois anos depois, em maio de 96, o pesadelo voltou a atormentá-la, depois que um dos que um dos condenados, Júnio, afirmou a uma revista que Lilian seria a mandante do crime. "Isso me doeu demais. No dia em que saiu a matéria, havia uma festa no Scandal comemorando as bodas de prata dos donos da Adocyl. Pensei que seria um fracasso, mas apareceu mais gente do que imaginava, todos dizendo que acreditavam em mim, e que aquilo era um absurdo", relembra.
Lilian acredita que o policial criminoso tenha tentado dar essa virada inspirado por um companheiro de cela, um estelionatário que estava na prisão a mais de 15 anos, na ocasião. É que naquela época ela recebeu talvez a maior homenagem da sua vida: Tornou-se enredo da Vai-Vai, com o Título A Rainha da Noite Tudo Transforma. "Eles devem ter me visto pela TV e pensaram em aprontar uma pra mim." Ainda bem que não foram só esses olhos gordos que a viram em seu momento de glória no Sambódromo paulistano. Mas convencê-la a aceitar a homenagem foi uma parada dura para a escola do Bexiga. "Fiquei assustada, disse para o presidente, o Tadeu, que tinha muita gente mais importante de são Paulo, como o Silvio Santos, a Hebe Camargo, o Gugu Liberato. Deixei claro, também, que não tinha um Tostão para investir no desfile. Eles insistiram, me convidaram para um almoço na quadra, e eu disse na cabeceira da mesa que aceitava ser o tema, desde que me prometessem o campeonato." Para provar o pé quente, deu Vai-Vai na cabeça.
Até hoje, ela se arrepia ao lembrar o trecho do samba de Wagner Santos e Borrão cantando na avenida: A noite, anfitriã da boemia/ Devoção e poesia/ Um brinde à plenitude da paixão/ É palco, é vil metal, é utopia/ Que transforma a fantasia/ Num jogo de prazer e sedução. Assina embaixo, pois é doutorada na matéria. "Quem trabalha na noite tem que ser psicóloga, analista, confidente e, acima de tudo, paciente. É saber sorrir quando se quer gritar". O lado negativo dessa carreira é o que chama a renuncia à vida pessoal. Mas que ninguém pense que carrega culpas por ter dedicado poucas horas aos filhos. "O tempo que passo com eles sempre foi muito pleno. Não me culpo porque vejo muita mulher que não trabalha, e passa quatro horas no cabeleireiro ou fazendo compras no shopping, deixando os filhos largados. Depois, eu os ensinei a terem fibra e a não cobrarem nada. São como eu, que já levei muita porrada da vida e fico de pé ou deitada. De joelhos, nunca!"