Uma rainha da noite
Revista “Visão”, 27 de Agosto de 1984, nº. 35, “Caderno Regional
Dona Maria, a cozinheira, morria de felicidade quando Juscelino elogiava a comida que fazia, o leitãozinho a pururuca, o tutu de feijão, a couve à mineira. E ficava ainda mais feliz, quando o presidente, naqueles ermos de Brasília, fazia agrados à filha dela e dizia: "Você vai vencer na vida, vai ser alguém, uma personalidade". Isso se passava antes da inauguração da nova capital, no Catetinho.
JK, que gostava de aposta no futuro, acertou, Lilian Gonçalves, a menina que segurava no colo, hoje uma mulher de 29 anos que mora em São Paulo, é uma vencedora. Não existe outra palavra para designar essa bonita Lilian que, há treze anos, pegou uma sacola e dois vestidinhos que tinha, mais uma nota amassada de 100 cruzeiros e na rodoviária, em duvida sobre o destino a escolher, passou para umas placas e disse para si: São Paulo.
Com a garra e a fibra que lhe reconhece hoje o jornalista Miguel Jorge, editor-chefe do Estado de São Paulo, Transformou-se numa sólida e bem-sucedida empresária da noite. Não apenas isso. Está conseguindo ser a cantora de sucesso que sempre quis ser. O compacto simples que gravou há um ano com Te Amo (WEA), de Ed Wilson e Me Perdoe, Amor, de Martinha. Vendeu 150 mil cópias. Espera vender muito mais do segundo, agora um compacto-duplo recém lançado pela Continental.
Mesas cheias - Quer ser famosa cantora por que acha mesmo que já é famosa como empresária da noite. Certamente não há em São Paulo quem, apreciando a noite, não a conheça do restaurante Birosca, na Rua Canuto do Val, 9 (Esquina com Dona Veridiana), da Toca da Angélica, na Avenida Angélica, do Birosca 2, na Rua Maracatins, no bairro de Moema, do Birosca 3, da Amaral Gurgel, 28, e do Bastidores, também na Canuto do Val, 28. Todos criados por ela.
O carro-chefe é o Birosca da Canuto do Val, uma festa popular que começa às 5 da tarde e estende-se até as 7 ou 8 da manhã e que, democraticamente, não apenas aceita, mas é procurada por todos. Nas Suas mesas, madrugada a dentro, comem, bebericam, batem papo e ouvem música empresários, jogadores de futebol, artistas, numa mélange que não se vê em lugar nenhum.
As paredes da casa, servida por nove garçonetes de uniformes - vermelhos no inverno, brancos no verão -, não economizam em fotos e recortes mostrando a proprietária ao lado de freqüentadores famosos. Numa das setenta mesas pode-se encontrar o jogador Serginho. Sócrates não saia de lá. Vinicius de Moraes, quando vinha a São Paulo, era lá que tomava seu uísque de fim de noite, Toquinho a tiracolo. Roberto Carlos, Walter Clark, Chico Anísio, Gretchen, Glória Menezes, Nelson Gonçalves e Roberta Close são nomes que, como mostram as fotos nas paredes, passam por lá. O movimento é intenso, varando a madrugada, e nos fins de semana é difícil encontrar o lugar vazio.
Garra e fibra - Vai-se ao Birosca por seus pratos baianos, pelo caldo verde, espécie de marca registrada da casa, pelo caldinho de feijão, pelo chope, pelas músicas caipiras que as duplas cantam de mesa em mesa, mas vai-se ao Birosca principalmente pela Lilian. Quem isso ao repórter Adones de Oliveira é o Jornalista Miguel Jorge, que, freqüentador há sete ou oito anos, não tem duvidas: "A casa lota por causa da Lilian, da sua figura. Sem ela fecharia em um ano. É ela quem faz o ambiente, com todos os tipos de pessoas, artistas, jogadores de futebol, pobres, milionários. Um sucesso que só se explica pela presença dela, sempre solicita, sempre recebendo bem todo mundo, fazendo todos se sentir a vontade". E o importante é que, "sem ser uma casa bonita e juntando tanta gente, normalmente bebendo muito, não há confusão, não se vê uma briga. A casa é boa, mas não seria se não fosse a Lilian, com sua garra, sua fibra".
Lilian hoje paga salários, nas várias casas, a 117 empregados. Diz trabalhar vinte horas por dia e seus funcionários confirmam. Às 10 da manhã está completando o fechamento do caixa de todas as casas. Só depois é que vai dormir para, segundo sua secretária Íris, à 1 da tarde já estar de volta, atendendo à média de quarenta pessoas por dia que a procuram em seu escritório, de candidatos a emprego até cobrador. É ela quem faz as compras, quem escolhe o cardápio, quem supervisiona tudo.
No Bastidores, com rodízio de comida baiana, é ela também quem vê tudo, do molho para a galinha à cabidela aos dezessete ingredientes que entram no vatapá. Julinho de Mesquita, também de O Estado, antigo freqüentador da casa, vê uma Lilian "expansiva e empreendedora, com uma incrível vontade de vencer e uma grande visão comercial. Não se limita a ser empresária: procura diversificar as atividades, como mostra agora que se dedica a carreira artística. Uma brigadora é o que ela é. Gosta de criar desafios para si mesma, pelo simples prazer de vencê-los. Tem uma resistência física extraordinária e esta sempre bem-humorada".
Essa brigadora foi assaltada seis vezes esse ano, mas não se abateu. Entrou numa escola de tiro e, em dez aulas, passou a atirar como campeã.
Lutar e vencer - De família humilde, com nove irmãos, Lilian Gonçalves nascer em Guarapuava, norte de Minas. Foi viver em Brasília aos dois anos e, aos dezesseis, ganhou o título de Miss Capital Federal. Não continuou no concurso por que denunciaram sua menoridade. Mas a experiência reforçou a vontade de vencer e de não perder oportunidades. "Não perco chances; ah, isso eu não perco."
Quando chegou em São Paulo, sem qualquer informação de nada, foi morar numa pensãozinha na Rua Jaguaribe, no bairro de Santa Cecília. No dia seguinte, entrou num restaurante chinês da Avenida Rio Branco, perguntou se precisavam de garçonete, precisavam e ela começou a trabalhar na mesma hora. Dois meses depois, estava casada com o garçom Job Luis, com quem viveu até recentemente e teve dois filhos - Kalinka, de treze anos, e Job Junior, de cinco. Ficou três anos na casa, e, como faz agora, trabalhava vinte horas por dia, cobrindo folga das colegas e juntando dinheiro.
Depois desse tempo, comprou um barzinho na mesma Rua Jaguaribe, que vendeu para comprar o Birosca. O garçom Geraldo, um de seus braços direito no Bastidores, é desse tempo, como também a garçonete Célia, para quem a Lilian não é patroa, é "mãe e amiga". Muitas das suas colegas que casam, com noivos que conhecem no Birosca, vivem em casas que cujo a aquisição Lilian facilita, endossando contatos ou emprestando dinheiro.
As coisas foram caminhando. Lilian comprou o prédio do Birosca, depois o prédio onde abriu o Bastidores e continuou comprando, comprando. Hoje é dona de quase todo o quarteirão da Canuto do Val à Rua Fortunato. Continua investindo só em imóveis e a não acreditar em crise. E continua também a trabalhar e a batalhar. Quando o Produtor Antônio Carlos Carvalho a ouviu cantar no Birosca e convidou-a a gravar, no dia seguinte estava no escritório da WEA, acertando tudo para o primeiro disco. Numa das quintas-feiras de agosto, gravou uma entrevista para o Fantástico, da Rede Globo, sobre atiradoras que fazem cursos para se precaver de assaltos em São Paulo. Atirou, acertou na mosca.